domingo, 16 de agosto de 2009

Tomado de Assalto.

Um cidadão que, envolto em seus pensamentos, acompanha as paisagens que passam pelo vidro de um ônibus, ouve o rapaz logo ao banco de traz lhe dizer: "Quieto, isto é um assalto, vai passando o que você tem." Como que em um salto ele 'recobra' a consciência e percebe-se cercado pelos que o assaltam.
É neste momento que percebe: "não sei como reagir, não sei o que fazer. Afinal, nunca fui assaltado antes!" Ironicamente, ele não foi tomado de assalto apenas pelos assaltantes, foi tomado de assalto por sua inexperiência. Até então os únicos assaltos que ele conhecia eram os de programas de comédia na TV - daqueles em que a arma do bandido acaba atirando água. Aliás, ele havia assistido muita TV ultimamente.
Há tantas notícias de violência, do crescimento dos homícios, das fulgas de presidiários, da polícia que vira bandido. Há tanto sangue! Como ele, justo ele nunca havia sofrido dessa violência.
Não é preciso muita experiência em assaltos para entender o mecanismo da coisa. Não se precisa muito para saber que a idéia central é você 'doar' seus bens aqueles que o estão reclamando. Mas ele esteve ali, inerte em seus pensamentos, reparando em quantas situações já não fora tomado de assalto.
Quantas vezes não ficou preso nas janelas de paisagens que passam na mente? Quantas vezes não viveu em meras ilusões? Como soube estar vivendo o primeiro amor? E a primeira proposta para noivar? E o primeiro filho - tão assim de repente - como saberia ser pai? Quantas primeiras vezes aconteceram e quantas viriam?
E os sentimentos? Quantas vezes não o trairam e o elogiaram? Já fora tomado de assalto diversas vezes por eles. Um choro ressentido por não ter conseguido um emprego. Um sorriso contagiante ao ver os seus pais lhe esperando em casa. A explosão do abraço daquele amigo que há muito não encontrava. O suspiro ao se emaranhar nos braços do amor. As surpresas que a vida lhe trouxe.

O cidadão então percebe que tem um curriculum grande e variado de assaltos, mas nenhum como esse. Alguns podem ter sido até mais perigosos, mas nunca lhe tiraram assim de sopetão os seus bens. Ele, retornando dos seus pensamentos, olha nos olhos dos assaltantes e diz:
- Acho que agora sou mais um nas estatísticas sociais.
Os bandidos inquietos e irritados pela demora compreendem do que se tratam as estatísticas do tal cidadão, mas insistem para que ele passe logo os bens antes que alguém os perceba. Este assalto está lhes tirando muito tempo!
O cidadão retira todo seu dinheiro da carteira, e passa junto com o relógio e o celular para os bandidos e lhes diz:
- Acho que agora vocês são mais um nas minhas estatísticas.
Os bandidos se entreolham sem entender. Pegam tudo e descem do ônibus antes que alguém perceba o que se passou ali.

[...]

3 comentários:

- Marina; disse...

Por favor, volta a escrever? (: Ficou muito bom. É ótimo canalizar as experiências ruins pra o papel. Preocupação a menos na vida. *-*
Beijos, te amo. (L)

Mih...s2 disse...

*-* Fui tomada de assalto quando conheci você..xD

Viviane disse...

Criiisssss

fikou muito bacana ...gostei

Bjaõo Td de boom pra tii